Chovia muito naquela noite de inverno, mais do que o esperado para o inverno na Zona da Mata Nordestina, a população soteropolitana era castigada pelas águas celestes, que eram particularmente cruéis com os mais pobres e os sem moradia. As estreitas ruelas dos subúrbios de Salvador eram verdadeiros córregos, de tal modo que os moradores nada podiam fazer a não ser ficar em casa, rezando, hora para Jesus Cristo e os santos, hora para os orixás filhos de Olorun. O azul mar bravio arrebentava-se nas areias ásperas da antiga cidade, e o céu escuro faiscava relâmpagos brancos. Não era justo, não era certo que os ricos ficassem abrigados na cidade alta, incólumes, e os pobres se afogassem na cidade baixa, junto dos ratos e baratas, pensava José.

Os leitores agora certamente se perguntam quem é José, este rapaz descendente de escravos. Pois bem, este é um pobre coitado que nunca conheceu o pai, e que, como tantos outros nordestinos, tentou a sorte em São Paulo, deixando para trás a mãe e as irmãs. Agora, como o filho pródigo, retornava à cidade de nascença, desiludido com a dureza do coração paulista, e era recepcionado pela tempestade que a tudo levava. Lutava para não escorregar nas poças de lama, e para não sucumbir à força das corredeiras que vinham morro abaixo, maldito o dia em que sua família decidira morar num morro íngreme, mas era o único local que poderia receber uma família maltrapilha, o único local que aprendera a chamar de lar.

- Vai se machucar, meu filho – a voz macia de sua mãe veio a seu encontro, e logo a mão, tão calejada, e ao mesmo tempo, tão delicada da progenitora de José envolvia os dedos do rapaz e o impedia de cair ladeira abaixo.

José nada respondeu, apenas sorriu para sua criadora e firmou-se em pé novamente. Segurou a mão dela antes de continuar a subir, mas ela o puxou de volta para baixo, com um sorriso terno, daqueles que só as mães sabem dar a seus filhos. O olhar da mulher então se voltou para uma ruela mais abaixo, localizada à sudoeste do casebre no qual a família de José morava. O rapaz encarou a mãe, imaginando o que se passava em sua cabeça.

- Passou muito tempo longe, meu filho. Eu e suas irmãs estamos morando na casinha azul, descendo por ali – indicou a mulher, sorridente – vai à frente, nos veremos de novo mais tarde.

- Obrigado, mamãe.

Assim fez o rapaz, deixou a mãe e desceu pela rua mostrada até chegar à casinha, visivelmente menor que a do alto do morro. Bateu na porta uma, duas, três vezes antes que sua irmã caçula a abrisse. Entrou rapidamente, seus ombros sendo logo cobertos por uma manta que sua irmã mais velha trouxera.

- Como chegou aqui?! – perguntou a caçula, visivelmente surpresa.

- Mamãe me mostrou o caminho – respondeu José, sem demorar.

As duas garotas trocaram olhares e ficaram pálidas, praticamente translúcidas, fato que não passou despercebido por José, visivelmente surpreso com a reação das irmãs.

- Maninho – começou a mais velha – mamãe morreu dois dias atrás, quando nossa velha casa desabou – terminou a mais nova.

Fora a vez de o rapaz perder a cor, era sua mãe, tinha certeza disso. Sentira sua pele, vira seu sorriso, ouvira sua voz, estaria ele louco? Não, a loucura não era uma possibilidade, talvez naquela Baía de Todos os Santos ainda houvesse espaço para um milagre, para o sobrenatural. Talvez naquela terra de Ogum, o amor de uma mãe pudesse superar, ainda que por um instante, a morte.

1 year ago